"Não sou este corpo que possui um espírito, mas sou o Espírito que fala por este corpo."

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Reminiscências do Mal

Reminiscências do Mal

No âmbito atual do retrato da criminalidade na nossa sociedade, em especial no que tange à “guerra” urbana instaurada na cidade do Rio de Janeiro nos últimos dias, é comum ouvirmos uma onda de manifestações populares que criticam modelos de legislação e condenam qualquer forma de direito e de dignidade atribuídos a estes indivíduos narcotraficantes e seus respectivos comparsas.

Decerto que tal impulso popular é reflexo de uma indignação coletiva, num misto de revolta e vingança, resultado de uma era de abusos e de exacerbação da violência, na qual estas quadrilhas intituladas “facções” consolidavam um verdadeiro império de poder e de desordem, aparentemente inatingível pelo próprio Estado.

Não comungo da ideia majoritária de que os considerados “marginais” devam ser aniquilados sumariamente, quais insetos impertinentes.

Sem dúvida a ordem necessita do imperativo da força para ser mantida e para ser retomada, sobretudo nestes centros do crime.

Contudo, desejar que a Polícia e as Forças colaboradoras promovam a morte direta e imediata destes indivíduos significa a ruptura de um regime institucional do Estado Democrático de Direito, significa a quebra de princípios que consolidam a justiça e princípios que consolidam os valores de uma coletividade pluralista e socialmente harmônica. Desejar a morte instantânea de um “fora da lei” agride preceitos da dignidade da pessoa humana, da ampla defesa, e o princípio da solução pacífica de controvérsias, todos estes preceitos cristalizados na Carta Constitucional Republicana.

Com efeito, além de representar uma rasgadura ao Texto Constitucional e uma transgressão ao Direito como ciência e como Doutrina, o desejo animal da morte de todos os infratores simboliza também uma violação às Leis de Deus. Um modelo cristão, evidenciado na maioria das religiões, implica uma conduta paltada na ideia de que não cabe ao homem retirar a vida do seu semelhante. Tal comportamento sanguinário, de destruição daquele considerado errado, nos remete a ideia retrógrada da Lei de Talião.

Destaca-se que, numa conjuntura de opinião impensada ou insana, que é deliberadamente propagada por pessoas de todas as classes, verifica-se a concretização de uma impulsividade generalizada pela população, neste contexto grotesco fica até “ridículo” citar a seguinte máxima: “Amai a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.” No entanto, quem disse isto não foi uma autoridade policial que se julga santa, nem mesmo qualquer um que resolveu levantar uma falsa moral, quem disse isto foi Jesus Cristo.

Obviamente, não se espera outra atitude de um policial que em confronto direto se depara com a resistência de um bandido senão a de um ataque letal ao inimigo resistente. Porém, daí a admitir nos tempos hodiernos a aplicação da lei de Talião é no mínimo um absurdo, não se trata de mera opinião religiosa, não se trata apenas de uma postura cristã, trata-se de uma questão de evolução do individuo enquanto ser pensante, ser que raciocina e não se deixa levar pela opinião de uma massa cega e doente.

Não pactuo do clamor de um povo levado pela emoção, porque a paixão é sempre perigosa e sempre se distancia da razão.

Muito me assusta ver pessoas que se dizem instruídas aplaudirem este tipo de comportamento deplorável que reduz os homens à condição de feras. Entretanto, é sabido que a instrução apenas informa, ao passo que a educação forma.

Uma educação viciada, amparada em conceitos deformados por ideias preconceituosas e criações convencionais, certamente irá gerar opiniões irrefletidas e grosseiras.

Desejar a morte de um bandido não resolve o um problema social, tampouco resolve um problema individual. Quem acha que a morte é a solução para qualquer coisa não escapará a conclusão inescusável de que quedou num ledo engano.

Levantar a bandeira da ira, do ódio e do instinto bestial, nos faz resgatar a veia bárbara e animalesca que perambula como um zumbi sonâmbulo no fundo de nossas almas. Faz-nos reviver o homem-velho existente em cada um de nós, que reflete o nosso próprio “espírito-velho” enraizado há milênios com desmedidas e descontroladas atitudes em todos os sentidos, afastando-nos de tudo que seja relativo ao Alto e ao Bem.

Estamos então novamente nas arquibancadas do Coliseu, assistindo a um espetáculo diabólico, no qual a carne, o sangue e a dor alheia são os principais atrativos. Tal como ocorria há 2.000 anos atrás, e assim, neste cenário, quando indagados quanto ao destino dos considerados infratores – “Homens às feras?” Não hesitaríamos novamente em erguer o polegar virado para baixo, como fazia o Imperador Romano, seguido dos gritos da massa ensandecida, vibrante com a destruição de mais um semelhante, que teve o seu comportamento desviado e por isso merece a morte.

Raphael V. Tavares

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O mal é a ausência do bem, assim como a escuridão é a ausência da luz.
Desta lógica, um dia será inadequado usar a palavra “morte” para falar da situação dos que já se foram, pois que a morte é a ausência da vida, mas aqueles que partiram ainda vivem, numa vida paralela a nossa!