"Não sou este corpo que possui um espírito, mas sou o Espírito que fala por este corpo."

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O Maior do mundo

Quando eu era criança achava que meu pai era o homem mais forte do mundo, porque, dentre outras coisas, ele era capaz de amassar uma tampinha de metal, dessas de garrafa de cerveja, usando apenas os dedos. Isso para mim era o suprassumo da força. O tempo passou, e depois eu passei a achar meu pai o cara mais inteligente do mundo, de memória particularmente aguçada e com aptidão para ciências exatas, eu achava que não tinha ninguém para disputar no raciocínio lógico com ele.

Costumava ser um exímio analista e sempre que era confrontado com um problema ele dividia a questão em partes para então, meticulosamente, solver cada uma delas, isso servia para qualquer problema, inclusive os da vida, não funcionava somente com a aritmética.

Sempre paciente, ele era quem me socorria nos exercícios da escola e foi um excelente professor ao me ensinar a dirigir num Monza 94 sem direção hidráulica, ensinou muitas outras coisas também (e continua ensinando até hoje) tal como a jogar Sueca e as artimanhas do Ping-pong... sim, aqueles eram tempos sem smartphones.
Daí eu passei a achar que ele era o maior professor do mundo.

Tinha frases marcantes que vivia repetindo, algumas impublicáveis outras caricatas. Várias das tiradas que ele proferia refletiam traços particulares do nosso dia a dia e só mesmo nós a entenderíamos, meu irmão se divertia dizendo algumas delas. 

"De doce já basta a vida!", esta ele usava quando alguém lhe oferecia açúcar.
"Cabeça foi feita para pensar, pensar não dói!"
"Deixa que eu deixo, vai que é minha!"
"Quem não tem competência não se estabelece"

Sempre que bebia meu pai fazia facilmente mil novos amigos, carinhoso, distribuía beijos e abraços. Sóbrio era mais reservado, calado, às vezes até sério. Eu herdei dele a característica marcante de não querer falar nem ouvir nada quando acordo pela manhã, o gosto musical também foi uma herança. Cresci ouvindo MPB, agradáveis tardes aos finais de semana degustando Gil, Djavan, em especial Caetano.

Alguns colegas nossos, com quem jogávamos bola na rua de trás, achavam que o meu pai era um Delegado (risos), tamanha a influência e a autoridade que ele exercia na vizinhança.
Ele nunca foi delegado, era somente um servidor público federal, que saia de casa caminhando todo dia para pegar o ônibus até o Centro do Rio, não sem antes fumar 1 ou 2 cigarros e tomar um café na padaria da esquina. Calça social sempre bem vincada, era comum usar camisas de linho, sapatos engraxados era lei. Impressionante como me vejo hoje repetindo as mesmas coisas que o meu pai fazia, com exceção dos cigarros e da facilidade de fazer amizades... lá na minha rua ninguém me confunde com um Delegado. 

Ainda na infância lembro que eu fui uma vez assistir meu pai jogar futebol de salão, no time que ele integrava. No meio do jogo meu pai acertou uma canhota de esquerda na diagonal atravessando a quadra, não me recordo se foi gol, mas lembro do barulho. Nesse dia então eu achei que meu pai tinha o maior chute do mundo.

Certa vez eu precisei passar um mês internado num hospital durante a minha adolescência, meu pai passou uma noite inteira acordado sozinho comigo, me vigiando, porque naquela noite eu tinha passado mal. Nesta ocasião eu achei que meu pai era o maior companheiro do mundo.

O tempo passou e passou, mais e mais, daí meu pai foi percebendo que a vida não era assim tão doce, na verdade ela pode ser bem amarga. Outra frase que ele dizia muito quando a gente se machucava era: "Dói, mas vai passar, o machucado não dói para sempre"
A frase funcionava com os ralados do nosso joelho, mas não servia para tudo. Meu pai experimentou uma dor que nunca mais passou... e nem vai passar. Talvez a maior dor do mundo! 

Porém, ele sobreviveu a essa dor! 
Foi então que eu percebi, depois da infância, depois da criança, depois de todo o tempo, até hoje e até sempre, que na realidade eu sempre tive razão, estava certo desde pequeno, meu pai era de verdade o cara mais forte do mundo!

Raphael V. Tavares

Um comentário:



O mal é a ausência do bem, assim como a escuridão é a ausência da luz.
Desta lógica, um dia será inadequado usar a palavra “morte” para falar da situação dos que já se foram, pois que a morte é a ausência da vida, mas aqueles que partiram ainda vivem, numa vida paralela a nossa!