"Não sou este corpo que possui um espírito, mas sou o Espírito que fala por este corpo."

terça-feira, 10 de março de 2020

Segurança de Patas


Como de costume, sai apressado naquele dia em direção ao ponto da condução. Dia limpo, céu aberto, atravessei o portão do condomínio não sem antes oferecer um "bom dia" protocolar ao Porteiro.
Logo na travessia do passeio público, avistei doutro lado uma jovem senhora que também caminhava para o ponto, ladeada por um cão. O animal saltava ao redor dela, girava, dava pequenos pulos, corria até pouco mais a frente, depois voltava até quase tocar nas pernas dela, até quase fazê -la tropeçar. 
"Saia Fresno!" Ela dizia.
"Falei para você ficar em casa!"
Não demorou para todos que estavam no ponto da condução entenderem, era o cão dela que veio acompanhá-la. Alguns sorriam, outros olhavam confusos.
Nesse monento eu já havia me juntado ao grupo dos passageiros a espera do coletivo e vi mais de perto a cena. A jovem senhora era alta, vestia uma calça social e uma blusa branca, começou a conversar com a vendedora ambulante sobre o episódio.
"Todo dia é isto, a senhora veja só! Ele me segue até aqui!"
"Já sujou a minha calça, Fresno!"
A ambulante sorria. "Ele é bem bonito!" devolveu.
E realmente era. Fresno era de cor chocolate e provavelmente de raça indefinida, pelo curto, olhos de um castanho grande, não deveria ter mais de 2 anos. Agitava a calda freneticamente e encarava sua dona.
Dado momento avistou outro cachorro a distância, pôs as orelhas eretas, empinou-se, observou atento até o possível adversário canino se afastar mais.
Veio o ônibus, dei sinal junto a outro grupo de pessoas, já dentro do veículo escutei um pequeno tumulto na porta.
"Saia, saia! Você não pode subir!"
A dona havia entrado no mesmo ônibus que eu e não havia nada que convencesse Fresno de que ele não poderia embarcar também. O motorista ria, alguns passageiros riam, a senhora a esta altura já estava visivelmente constrangida e Fresno estava dentre as pernas daqueles que subiam a escada do coletivo.
Finalmente conseguiram fazer o cão desistir da ideia, ele se pôs na porta do ônibus, do lado de fora, e de lá fitava sua dona pela janela. Ela o encarava franzindo a testa, tal qual uma mãe encara um menino travesso após uma traquinagem. Mais alguns segundos e o coletivo partiu.
Não era nem 07:00 horas e eu já havia testemunhado naquela manhã a mais genuína forma de fidelidade e amor, vinda de um animal.


Raphael V. Tavares

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O mal é a ausência do bem, assim como a escuridão é a ausência da luz.
Desta lógica, um dia será inadequado usar a palavra “morte” para falar da situação dos que já se foram, pois que a morte é a ausência da vida, mas aqueles que partiram ainda vivem, numa vida paralela a nossa!