O Ataque das Perguntas
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Ainda me pergunto como terá sido a sua chegada por lá, e como tem sido a sua estadia neste oculto lugar. O enigmático tempo nos tempera ao seu bel prazer, fazendo-nos relembrar daquilo que covardemente buscamos esquecer. As cenas mais marcantes batalham entre si, as dos dias finais, que revelaram profunda e registrável lembrança em tão pouco tempo, e as cenas de toda uma vida, que traduziram toda juvenilidade de um inesquecível personagem numa curta história. As imagens brigam, se congelam, as cenas conflitam-se na disputa de quem marca mais, a foto da dor ou a memória da risada, ambas embaladas pelo frio (ou quente) sopro da saudade. No duelo entre as palmas do sepultamento que ainda são ouvidas e as suas gargalhadas desenfreadas que ainda são sentidas, uma lágrima vez ou outra rola, às vezes dói, às vezes não dói, as indagações serão sempre presentes, mormente enquanto ainda estivermos por aqui, mas perguntas sem fundamento não ajudam nada no enfrentamento da caraça de uma realidade.
Pessoas continuam constrangidas ao tocar no nome dele, sentem-se receosas, prudentes, buscam todo cuidado ao marcar qualquer fato que envolva a recordação. Natural, pede realmente muita cautela esse assunto ainda não trabalhado em nossas almas materializadas e não educadas para conviver com a morte. Cada um lida (ou tenta lidar) com a situação na sua forma particular, tenho certeza que muitos ainda choram ao monte em seus travesseiros, outros o evocam, chamam-no pelo pensamento, sem falar nos que ainda o atribuem a característica de Santo, não duvido que já tenham feito alguma "promessa" para ele. Quem sabe ele até ria disso tudo de onde está, na minha humilde concepção, imagino que sofra ainda pela saudade.
Li um artigo onde um cientista completamente ateu (como a maioria dos cientistas) defendia o seu "ateísmo" dizendo que qualquer assunto que trate de espiritualidade e de sobrenatural não passa de fantasia criada pelo homem numa forma de não aceitação da realidade. Para este estudioso a ciência sim explica e prova tudo, e não existem formas de aplicar nada espiritual a um contexto absolutamente científico. Embora eu discorde no mérito do mencionado artigo, não deixo de respeitá-lo, apenas lamento que um estudioso não tenha aceitado conclusões em contrário, feitas por seus colegas, também cientistas e também estudiosos. É claro que os cientistas mais "abertos" ainda são minoria, porém é quase unânime a afirmação de que a ciência caminha em constante evolução (assim como tudo) e que ainda existe muito a ser descoberto. Kardec citou há mais de um século e meio atrás que: "Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito." Vale dizer que, Kardec além de cientista (aprofundando-se na ciência metapsíquica), teve seu trabalho reconhecido por estudiosos que confirmaram a sua importância no desenvolvimento dos estudos psíquicos no mundo inteiro. Camille Flammarion, um dos maiores astrônomos da história, sempre lhe foi grato pelos estudos que eram correntes na Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, e foi ele quem fez o discurso fúnebre de Kardec. Astrônomos e Físicos contemporâneos publicaram estudos demonstrando as inovações e revelações propostas pelas novas idéias no campo da Cosmologia, do Magnetismo, e da Física Quântica, idéias ainda prematuras, mas que já apresentam um tímido e tênue laço entre a ciência e alguns preceitos da religião. Ainsten já dizia na sua "Teoria da Relatividade" que a idéia de tempo e espaço não era absoluta e inteiramente compreendida, como ainda não é absoluta e inteiramente compreendida a idéia de espírito ou qualquer coisa espiritual, na nossa atual abrangência científica. Concordo solidamente que a ciência prova e explica, mas não tudo ainda, e sim quase tudo. E não estaria tão longe assim o dia em que a ciência explicaria também diversos fenômenos, mostrando que o que hoje é taxado de "sobrenatural" não passa de algo puramente natural.
Nunca fui médium, ou seja, nunca fui portador da sensibilidade que me permitisse identificar ou comunicar com algo qualquer extra-físico. O máximo que já percebi foram estas coisas que até os mais insensíveis percebem, como avistar algum vulto ou ter a sensação de alguém ter lhe chamado pelo nome, quando não havia ninguém por perto. Porém, ocorreram vezes em que posso afirmar que sabia que meu irmão estava ali, perto de mim, eu apenas não o via. Os céticos e ateus me dirão: "Louco. O que sentiu não foi mais que fruto da tua mente e da tua saudade". Não os responderei nada, pois a certeza que me garante escapole a razão, e para mim, muito tolo é o homem que pensa ser a sua razão detentora de todas as coisas do Universo.
Deixando a ciência e a crença de lado, volto a falar da ausência do nosso amigo. É lógico e racional que os questionamentos inúteis não nos ajudarão em nada, tampouco o trarão de volta, mas parece-nos inevitável indagar e tentar buscar algo coerente quando somos alvejados por momentos de nossas vidas que nos trazem a gostosa fragrância da sua saudosa convivência. Alguém que foi apaixonada por ele, irá se sentir tomada pela lista de indagações ao passar por um barzinho convidativo ao encontro de casais, embora ele não fosse dos mais inclinados a discutir relações (rs), ou então, se verá envolvida pelas perguntas ao achar um pedaço de bilhetinho escondido num fundo de armário, um pedaço que era pra ser esquecido, mas que de vez em quando é desesperadamente procurado e que então lhe permite lembrar de quando foi entregue, lhe permite ter consigo aquele instante, aquele sorriso. Os amigos são constantemente flechados pelas indagações quando estão naqueles locais onde ele também estava, nas festas, churrascos e encontros que lhe aprazia estar. Principalmente, quando passa o tempo e estes amigos percebem que a saudade dele não vai passar, percebem que aquela frase que lhe era característica parece não desgastar com os anos e ainda pode ser lembrada com a mesma sonoridade de antes, aí então a pergunta também rebate aos amigos: Por quê? Aos familiares, cada um na sua memória, no seu registro, têm a cena preferida dele, e eles também são invadidos pelo ataque das perguntas.
A este que vos escreve, a pergunta também o persegue, sobretudo quando caio nos feitiços da lembrança, da criança, do vazio, da lição, do homem, e do irmão. Da forma com que ele (provavelmente sem querer) ensinava-nos, sem preconceitos, sem discriminações, não era perfeito, mas em suas virtudes, ensinava-nos sem percebermos. Como na visita a um Orfanato com ele, não obstante o desagradável abafamento no local, poltronas rasgadas, quebradas e o desconforto do lugar, ele apenas sorria e calava, somente sorria, brincando com as crianças, numa pureza que para um observador mais atento, nos deixaria diante de uma bela e pura lição de caridade.
Eu disse que os questionamentos inúteis não nos ajudarão em nada, porém, não poderá haver questionamentos úteis? Deixando a parte todo o sofrimento (ainda que seja quase impossível deixar a parte), toda dor nos faz crescer, ninguém morre antes da hora, senão vejamos, Deus seria imperfeito e injusto, aos incrédulos perfeitamente normal, pois estes negam o próprio Deus, mas aos restantes não, um Deus injusto é uma verdadeira blasfêmia. Quando perguntamos "Por que?" e não enxergamos resposta, será porque a resposta de fato não exista, ou será porque ainda não temos capacidade de avistá-la? Ao perguntarmos “por que”, não estaríamos embrulhados numa concepção de um Deus que tenha que atender as nossas vontades e aos nossos caprichos, um Deus que tenha que satisfazer aquilo que queremos, simplesmente porque pedimos em oração e com verdadeira fé? Contudo, e se aquilo que estamos requerendo não for o que deva ser feito? Já consideramos esta possibilidade? E se houver um motivo justo para isso tudo, que não pode ser enxergado ainda, se a morte for uma reação, um efeito, de algo que tenha sido causa anterior? Não falo de uma causa material e concreta, mas de uma lei intrínseca e pré-determinada ao destino de cada um de nós.
Estas podem ser perguntas úteis. Ou não. Depende.
Como a maioria de nós ainda não está preparado para o conformismo, então perguntamos, indagamos, isso é ótimo, é isso que faz o mundo girar, os pensadores pensarem, os cientistas descobrirem e os inventores criarem. No entanto, enquanto não enxergamos respostas, a pergunta não cala, ela continua viva. E não serei eu que terei a pretensão de lhes trazer a resposta. A resposta, para os que admitam que ela exista, está dentro de cada um de nós.
Pessoas continuam constrangidas ao tocar no nome dele, sentem-se receosas, prudentes, buscam todo cuidado ao marcar qualquer fato que envolva a recordação. Natural, pede realmente muita cautela esse assunto ainda não trabalhado em nossas almas materializadas e não educadas para conviver com a morte. Cada um lida (ou tenta lidar) com a situação na sua forma particular, tenho certeza que muitos ainda choram ao monte em seus travesseiros, outros o evocam, chamam-no pelo pensamento, sem falar nos que ainda o atribuem a característica de Santo, não duvido que já tenham feito alguma "promessa" para ele. Quem sabe ele até ria disso tudo de onde está, na minha humilde concepção, imagino que sofra ainda pela saudade.
Li um artigo onde um cientista completamente ateu (como a maioria dos cientistas) defendia o seu "ateísmo" dizendo que qualquer assunto que trate de espiritualidade e de sobrenatural não passa de fantasia criada pelo homem numa forma de não aceitação da realidade. Para este estudioso a ciência sim explica e prova tudo, e não existem formas de aplicar nada espiritual a um contexto absolutamente científico. Embora eu discorde no mérito do mencionado artigo, não deixo de respeitá-lo, apenas lamento que um estudioso não tenha aceitado conclusões em contrário, feitas por seus colegas, também cientistas e também estudiosos. É claro que os cientistas mais "abertos" ainda são minoria, porém é quase unânime a afirmação de que a ciência caminha em constante evolução (assim como tudo) e que ainda existe muito a ser descoberto. Kardec citou há mais de um século e meio atrás que: "Todo efeito tem uma causa. Todo efeito inteligente tem uma causa inteligente. O poder da causa inteligente está na razão da grandeza do efeito." Vale dizer que, Kardec além de cientista (aprofundando-se na ciência metapsíquica), teve seu trabalho reconhecido por estudiosos que confirmaram a sua importância no desenvolvimento dos estudos psíquicos no mundo inteiro. Camille Flammarion, um dos maiores astrônomos da história, sempre lhe foi grato pelos estudos que eram correntes na Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, e foi ele quem fez o discurso fúnebre de Kardec. Astrônomos e Físicos contemporâneos publicaram estudos demonstrando as inovações e revelações propostas pelas novas idéias no campo da Cosmologia, do Magnetismo, e da Física Quântica, idéias ainda prematuras, mas que já apresentam um tímido e tênue laço entre a ciência e alguns preceitos da religião. Ainsten já dizia na sua "Teoria da Relatividade" que a idéia de tempo e espaço não era absoluta e inteiramente compreendida, como ainda não é absoluta e inteiramente compreendida a idéia de espírito ou qualquer coisa espiritual, na nossa atual abrangência científica. Concordo solidamente que a ciência prova e explica, mas não tudo ainda, e sim quase tudo. E não estaria tão longe assim o dia em que a ciência explicaria também diversos fenômenos, mostrando que o que hoje é taxado de "sobrenatural" não passa de algo puramente natural.
Nunca fui médium, ou seja, nunca fui portador da sensibilidade que me permitisse identificar ou comunicar com algo qualquer extra-físico. O máximo que já percebi foram estas coisas que até os mais insensíveis percebem, como avistar algum vulto ou ter a sensação de alguém ter lhe chamado pelo nome, quando não havia ninguém por perto. Porém, ocorreram vezes em que posso afirmar que sabia que meu irmão estava ali, perto de mim, eu apenas não o via. Os céticos e ateus me dirão: "Louco. O que sentiu não foi mais que fruto da tua mente e da tua saudade". Não os responderei nada, pois a certeza que me garante escapole a razão, e para mim, muito tolo é o homem que pensa ser a sua razão detentora de todas as coisas do Universo.
Deixando a ciência e a crença de lado, volto a falar da ausência do nosso amigo. É lógico e racional que os questionamentos inúteis não nos ajudarão em nada, tampouco o trarão de volta, mas parece-nos inevitável indagar e tentar buscar algo coerente quando somos alvejados por momentos de nossas vidas que nos trazem a gostosa fragrância da sua saudosa convivência. Alguém que foi apaixonada por ele, irá se sentir tomada pela lista de indagações ao passar por um barzinho convidativo ao encontro de casais, embora ele não fosse dos mais inclinados a discutir relações (rs), ou então, se verá envolvida pelas perguntas ao achar um pedaço de bilhetinho escondido num fundo de armário, um pedaço que era pra ser esquecido, mas que de vez em quando é desesperadamente procurado e que então lhe permite lembrar de quando foi entregue, lhe permite ter consigo aquele instante, aquele sorriso. Os amigos são constantemente flechados pelas indagações quando estão naqueles locais onde ele também estava, nas festas, churrascos e encontros que lhe aprazia estar. Principalmente, quando passa o tempo e estes amigos percebem que a saudade dele não vai passar, percebem que aquela frase que lhe era característica parece não desgastar com os anos e ainda pode ser lembrada com a mesma sonoridade de antes, aí então a pergunta também rebate aos amigos: Por quê? Aos familiares, cada um na sua memória, no seu registro, têm a cena preferida dele, e eles também são invadidos pelo ataque das perguntas.
A este que vos escreve, a pergunta também o persegue, sobretudo quando caio nos feitiços da lembrança, da criança, do vazio, da lição, do homem, e do irmão. Da forma com que ele (provavelmente sem querer) ensinava-nos, sem preconceitos, sem discriminações, não era perfeito, mas em suas virtudes, ensinava-nos sem percebermos. Como na visita a um Orfanato com ele, não obstante o desagradável abafamento no local, poltronas rasgadas, quebradas e o desconforto do lugar, ele apenas sorria e calava, somente sorria, brincando com as crianças, numa pureza que para um observador mais atento, nos deixaria diante de uma bela e pura lição de caridade.
Eu disse que os questionamentos inúteis não nos ajudarão em nada, porém, não poderá haver questionamentos úteis? Deixando a parte todo o sofrimento (ainda que seja quase impossível deixar a parte), toda dor nos faz crescer, ninguém morre antes da hora, senão vejamos, Deus seria imperfeito e injusto, aos incrédulos perfeitamente normal, pois estes negam o próprio Deus, mas aos restantes não, um Deus injusto é uma verdadeira blasfêmia. Quando perguntamos "Por que?" e não enxergamos resposta, será porque a resposta de fato não exista, ou será porque ainda não temos capacidade de avistá-la? Ao perguntarmos “por que”, não estaríamos embrulhados numa concepção de um Deus que tenha que atender as nossas vontades e aos nossos caprichos, um Deus que tenha que satisfazer aquilo que queremos, simplesmente porque pedimos em oração e com verdadeira fé? Contudo, e se aquilo que estamos requerendo não for o que deva ser feito? Já consideramos esta possibilidade? E se houver um motivo justo para isso tudo, que não pode ser enxergado ainda, se a morte for uma reação, um efeito, de algo que tenha sido causa anterior? Não falo de uma causa material e concreta, mas de uma lei intrínseca e pré-determinada ao destino de cada um de nós.
Estas podem ser perguntas úteis. Ou não. Depende.
Como a maioria de nós ainda não está preparado para o conformismo, então perguntamos, indagamos, isso é ótimo, é isso que faz o mundo girar, os pensadores pensarem, os cientistas descobrirem e os inventores criarem. No entanto, enquanto não enxergamos respostas, a pergunta não cala, ela continua viva. E não serei eu que terei a pretensão de lhes trazer a resposta. A resposta, para os que admitam que ela exista, está dentro de cada um de nós.
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Raphael V. Tavares