"Não sou este corpo que possui um espírito, mas sou o Espírito que fala por este corpo."

quarta-feira, 30 de março de 2016

Patologia da Maldade contra Careca TV


   Na madrugada do dia 28 de março Lorena, a menina que faz tratamento contra o câncer e divulga seus vídeos na internet, teve sua conta virtual invadida por hackers. Os invasores apagaram todos os seus vídeos, assim como trataram de excluir os seguidores inscritos no canal, junto aos respectivos comentários.
   Através dessa ferramenta, Lorena publica de forma leve e descontraída a rotina de uma criança que precisa enfrentar essa doença, com os comentários sobre as quimioterapias e os detalhes do tratamento. O canal foi batizado de "Careca TV", uma alusão aos efeitos da medicação, e a  Lorena tinha um sonho de ter uma conta dessa na internet há muito tempo, segundo relato dela própria.
   Ao tomar conhecimento desse tipo de notícia, fiz o exercício difundido pelas igrejas, pelos pastores e até pelos pensadores, o exercício consiste em se colocar no lugar do indivíduo que praticou o ato para então tentar entendê-lo,  com vistas a perdoá-lo. Não consegui, confesso. Não foi má vontade minha, mas não passa pela minha cabeça nada que explique ou faça algum sentido para uma pessoa fazer isso que foi feito contra Lorena. O "CarecaTV" estava começando a ganhar expressão, inclusive na imprensa, e com o canal Lorena ajuda milhares de outras crianças que precisam lidar com o mesmo problema. Seria inveja da popularidade alcançada? Fica aí a tarefa para os psicanalistas e freudianos decifrarem. 
   Essas coisas nos fazem refletir sobre o ser humano e suas misérias da alma. Buscam arrumar "razões" para os assassinos, bandidos e psicopatas, alegando influência do meio, condição social, patologia mental e diversas outras teses, nenhuma delas justifica, mas podem até explicar alguma coisa.
   Agora, o que explicaria para entender um indivíduo que se reveste do "prazer" de destruir o pouco da felicidade de uma criança, que já precisa lutar contra problemas da ordem de um câncer?
   A irmã de Lorena relatou que após acordar e descobrir que tudo estava apagado, a menina teve que secar suas lágrimas e se arrumar para mais uma sessão de quimioterapia. O que alegar para entender alguém que faz isso?
   Não tem razoabilidade nenhuma, é a patologia da maldade!
  Lorena recomeçou do zero, teve o apoio de várias pessoas, inclusive artistas, e sua nova conta vem crescendo atualmente.
  Já ouvi dizer que vivemos num mundo de provas e expiações, mas às vezes mais parece um mundo de imbecis e aberrações, sobretudo em tempos de internet.


Raphael V. Tavares

Marx e Kardec



    Karl Marx e Allan Kardec foram contemporâneos e há quem sustente que o primeiro tenha frequentado as conhecidas reuniões do codificador espírita na segunda metade do século XIX (fato este sem nenhuma comprovação). Enquanto Marx procurou distanciar o homem completamente da religião, a fim de não submetê-lo aos dogmas da Igreja que pudessem incliná-lo ao capitalismo, Kardec deu nova roupagem ao conceito moral-cristão, admitindo uma doutrina espiritual tanto na base quanto na essência. Kardec, segundo a sua codificação espiritual, atribuiu uma tríplice característica à doutrina espírita, sendo esta religiosa, filosófica e científica, já Marx classificou a religião como sendo “o ópio do povo”.

    Fato curioso é que, assim como Marx e o seu parceiro Engels nunca idealizaram o termo “marxismo” para designar o corpo de suas ideias, Kardec também nunca conjecturou que a doutrina codificada pudesse levar o seu nome, “kardecismo”. Marx sempre se referiu ao seu corpo de ideias como socialismo científico, pensamento materialista social, etc, mas nunca imaginou que a associação a sua teoria tivesse de necessariamente carregar o seu nome. Da mesma maneira, Kardec sempre ratificou que a doutrina espírita advinha de uma ideologia espiritual e não dele próprio, sem jamais ter a pretensão de batizar o conjunto doutrinário com o seu nome.

    Muito embora Kardec tenha utilizado o método experimental, dando assim um caráter científico a sua doutrina, o fato dele se distanciar do materialismo e admitir o espiritualismo o afasta significativamente da ideologia de Marx. Contudo, há quem admita que o socialismo e o espiritismo guardem certa relação de similaridade, pelo menos do ponto de vista da rejeição aos valores atribuídos ao capital e a problematização da sociedade de classes.

    Do método de Kardec resulta outra particularidade semelhante com o pensador alemão, Marx também utilizou-se da metodologia científica para esmiuçar o capitalismo, ao passo que Kardec o fez para codificar o que chamou de espiritismo. Da mesma maneira, Mark usou sua teoria para criticar problemas da sociedade que permeiam até hoje, como exploração, alienação, sofrimento físico e mental causado pelo trabalho, divisão de classes, etc. Enquanto Kardec também abordou questões sociais e existenciais que permanecem insolúveis para dinâmica social atual, como o real sentido da vida e da morte, causas dos sofrimentos, existência dos espíritos e a relação com mundo espiritual. Embora sobre temas eminentemente diferentes, os dois pensamentos trazem reflexões sobre aspectos que representam realidades ainda atuais e ativas na vida social e humana.

    As duas ideologias passam a caminhar novamente em sentidos opostos quando tecem acerca da transformação. Marx sustenta uma revolução pela força, único meio capaz de livrar a classe oprimida da burguesia dominante, ao passo que, Kardec propõe uma transformação moral individual, sob um aspecto cristão, de maneira que a sociedade se modificará na medida em que os indivíduos se transformarem.

    Ambos foram marcantes ao seu tempo, pensadores que descortinaram suas respectivas doutrinas sob um aspecto totalmente destoante da realidade da sociedade de sua época, sendo fato incontestável que foram filósofos a frente de seu tempo e que deixaram um legado de doutrina e pensamento a ser ainda descortinado e utilizado pela humanidade. Longe de estarem ultrapassados, quem se detiver em estudá-los verá que a problemática de suas teorias permanece contemporânea.


Raphael V. Tavares

Afogados com Aylan

Ele estava ali, caído, inerte, e aquela foto rodou e chocou o mundo. Seus bracinhos miúdos dobravam, molhados pelo mar Egeu na Turquia, e seu rosto sem vida e sem sorriso beijava a areia na praia de Ali Hoca Burnu. Foi por aquele mesmo mar que o pai de Aylan buscou uma fuga, a fuga pela esperança, a fuga de alguém que só tem conhecido dor e guerra, e vendo os seus filhos padecerem de fome não enxergou outra alternativa que não fosse fugir.

Não deu. O barco com os imigrantes sírios fugitivos naufragou, o pai de Aylan não alcançou seu objetivo, Aylan se afogou.

Renata, brasileira, que viu a imagem na timeline do seu Facebook na tela do seu smartphone, também ficou chocada. Chegou a se emocionar sinceramente com a imagem tocante. Mas, como não se interessa por assuntos políticos, Renata não entendeu muito bem o que aquela foto representava, voltou a verificar as notificações na sua timeline e em seguida foi atualizar uma página de “cachorros fofos” ou “soft dogs” que alimenta no seu Instagram.

Márcio, brasileiro, também ficou assustado com a foto de Aylan, chegou a pedir a sua mãe, dona Sônia de 64 anos, que rezasse pelo menino na missa de domingo que vem, na Paróquia do seu bairro. Márcio comentou com seus amigos do escritório que chegou a sentir um aperto no peito diante da imagem, depois Márcio ligou seu computador, foi consultar as páginas fascistas que ele participa, precisava organizar os preparativos para a próxima passeata que pede a volta da ditadura, a passeata pede também que a Presidente Dilma se mate.

As notícias da internet anunciavam o afogamento de Aylan, mas não foi só o pequenino que se afogou, junto com Aylan naufragou seu pai, mesmo tendo sobrevivido ele se afogou com a dor e o desespero, afogaram-se também Renata e Márcio, mesmo que eles não saibam se afogam diariamente com a indiferença estúpida e alienante. Afogamos todos nós, na nossa resiliência passiva que assiste aos inocentes que não podemos salvar.

Raphael V. Tavares


O mal é a ausência do bem, assim como a escuridão é a ausência da luz.
Desta lógica, um dia será inadequado usar a palavra “morte” para falar da situação dos que já se foram, pois que a morte é a ausência da vida, mas aqueles que partiram ainda vivem, numa vida paralela a nossa!